Alencar Garcia de Freitas: Fala-se muito na violência urbana e pouco na suburbana

7 de julho de 2016


Conversando com uma professora de ensino fundamental, perguntei-lhe a quanto anda a violência na escola em que trabalha, localizada em um dos subúrbios da Grande Vitória. 

Disse ela que é algo tremendo, com alunos se pegando dento da própria sala de aula, e que, em situações como essas, não é besta de se meter, nem mesmo tentar apartar, para não correr o risco de sobrar para ela, levando sopapos também e acusações idiotas (se um dos alunos aparecer arranhado, pode jogar a culpa na professora...), e que, nesse caso, o melhor é ficar de fora. 

Tentando dar uma pequena contribuição, argumentei com a professora que talvez esse tipo de violência esteja acontecendo pela falta de educação de base, de Paulo Freire, que deveria ser ensinada pelos pais dentro de casa; ela riu e disse que aí que acontece o pior porque os pais são os primeiros que dão mau exemplo; não têm moral para ensinar o bom caminho.

Com esse enfoque – violência suburbana - pode parecer um preconceito com os suburbanos e, por outro lado, uma apreciação apenas com os moradores das áreas urbanas ocupadas, quase sempre, pelas classes média e alta. 

Nada disso; o viés é outro: a verdade é que os bairros pobres não recebem os mesmos investimentos em infraestrutura – saneamento básico, escolas, postos médicos, asfaltamento, redes de esgoto, transporte público e outros serviços essenciais que contribuem para levantar a moral dos moradores da periferia, enquanto que nos bairros nobres esses benefícios todos estão sempre presentes.

A violência suburbana muitas vezes é decorrente da baixa estima da população.

Acredito que poderia acontecer uma verdadeira inversão de valores, para melhor, lógico, se o poder público desse mais atenção às demandas das classes menos favorecidas, o que poderia contribuir bastante para diminuir a violência lá. 

Vale citar alguns tipos de violência que ocorrem nos ônibus (assaltos aos passageiros, saltar a roleta ou forçar a barra para entrar pela por traseira do ônibus, sem pagar passagem), delitos que não ocorrem com a mesma frequência nos ônibus que trafegam pelos bairros mais ricos da região urbana. Esse dado, aliás, bem que poderia servir de base para um estudo sociológico mais profundo.

Tenho uma experiência pessoal com relação aos ônibus que utilizo para me locomover vindo e voltando do trabalho, fazendo o trecho Jardim Camburi/Centro/Jardim Camburi, há vários anos, e nunca presenciei um assalto e quanto a saltar roleta, poucas vezes vi essa cena. 


Outro dia, no entanto, peguei por engano um ônibus que atende um bairro da periferia e junto comigo uns doze adolescentes e pré-adolescentes que saltaram a roleta, gritando: somos trombadinhas, e daí?




Alencar Garcia de Freitas 

é jornalista





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