Alencar Garcia de Freitas: A memória do meu “computador-cachola”

1 de julho de 2016
O que é cachola 
Do popular: cabeça, cérebro, crânio, juízo.




Noite dessas tive o privilégio de falar para uma platéia de jovens casais, em sua maioria jovens de verdade, e aproveitei para fazer um desabafo com eles, dizendo que essa nova geração não tem paciência para ouvir a turma da terceira idade ou melhor idade (melhor idade tem sido um modo carinhoso e generoso de os mais moços tratarem os velhinhos...). 

Dizia eu, então, que procurava compreender esse tipo de rejeição, porque realmente os idosos são muito esquecidiços e repetitivos, dando um cansaço tremendo nos que os ouvem.

Embora seja um dos milhões de esquecidiços e repetitivos como esses, sinto-me bastante privilegiado, porque às vezes o computador com que opero fazendo meus textinhos me deixa na mão na hora que mais preciso dele, enquanto que o meu “computador-cachola” está aqui, firme, respondendo minhas necessidades imediatas em termos de fatos ocorridos há mais de 70 anos, com nomes completos de seus personagens. 

E olha que os atuais computadores, as novas gerações deles, dão um banho de recursos tecnológicos inimagináveis!
Quer um exemplo de como alguns desses computadores deixam a gente na mão? Faça um teste, por exemplo, recorrendo ao aplicativo dicionário da língua portuguesa. São tantos furos, que talvez o melhor mesmo seja buscar socorro, como antigamente, nos bons, porém, chamados “pai dos burros”, porque com ele, sem dúvida, vou me sentir mais seguro.

Voltando ao meu “computador-cachola”, que até agora não tem falhado, Deo gratias, lembrei-me, outro dia, de algo acontecido comigo há 50 anos, mais ou menos, envolvendo um importante personagem da política capixaba, já falecido, que foi deputado estadual e depois federal, cassado pelos milicos, por ser considerado comunista. 

Seu nome: Mário Gurgel. Fomos muito próximos pelo fato de ser um dos produtores e o apresentador oficial do programa radiofônico Alguém Cuidará de Você, na Rádio Capixaba. Além de apresentador desse programa, era um entusiasta e apoiador incondicional da Casa do Menino, na Ilha do Príncipe, iniciativa daquele saudoso parlamentar. Certo dia, durante um dos intervalos do programa, fiz um pedido especial ao deputado: Mário, estou precisando de um grande favor seu. 

Um dos meus irmãos, recém-chegado de Minas, com mulher e filhas, está desempregado... Ele sequer deixou eu concluir e foi logo recomendando que marcasse um horário no gabinete dele, na Assembléia Legislativa. Com essa recomendação, marquei um horário, uma, duas, três vezes, sem jamais conseguir falar com ele. Desisti. Certo dia, saindo da Rádio e indo para o Banco, em que era caixa, um carro buzinou; era um carro oficial conduzindo Mario Gurgel. 

O motorista parou e Mário me convidou para entrar no carro, porque queria conversar comigo sobre o pedido de emprego para meu irmão. Eu não entrei no carro, agradeci e disse-lhe que já havia conseguido emprego para meu irmão. 


Talvez por isso, nunca mais acreditei em políticos e suas promessas. Por aí se vê como o meu “computador-cachola” funciona bem até hoje.



Alencar Garcia de Freitas 
é jornalista

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