Alencar Garcia de Freitas: Meu pai daqui da terra...

18 de agosto de 2016
Faz quase uma eternidade: nunca mais vi você!
Quando você se foi, levado pela morte, eu era uma criança, com apenas cinco anos!

Tenho vagas lembranças de você: cabelos ralos, com uma calvície aparecendo e um enorme bigode, como os portugueses de antigamente; olhar severo; não gostava de dizer a mesma coisa mais de uma vez.

Mesmo não sendo conhecedor da Bíblia, suponho, era aquele tipo que pautava a sua vida, a vida de minha mãe e a vida dos meus irmãos na base do “sim, sim; não, não”. Nunca ia além disso!

Minha mãe era muito reservada quando o assunto era o modo de ser de meu pai.
Alguma coisa que eu conhecia de “seu” Garcia, como meu pai era conhecido, me era contada pelos meus irmãos mais velhos, mesmo assim com muita reserva e reverência...

Uma das minhas irmãs mais velhas, a Luzia, que era minha madrinha, tradição trazida, creio, pelos portugueses (os irmãos mais velhos se tornavam padrinhos dos mais novos), contava que “seu” Garcia nunca havia posto no colo um dos dez filhos até então nascidos; ela, então, resolveu “revolucionar”, aproximando-se dele , comigo no colo (eu devia ter uns oito a dez meses de vida), dizendo:

- Pai, o senhor já viu como Alencar está saudável e pesado? Ele olhando de longe respondeu “estou vendo”; e ela, desafiadora, retrucou: o senhor precisa pegá-lo no colo para poder sentir... e ato contínuo, me colocou no colo dele e ele imediatamente, depois de sentir que eu estava realmente pesado, deu-me de volta à minha irmã...

Minha mãe, dona Guilhermina, contava que certo dia, tendo “seu” Garcia entrado num boteco para comprar fumo de rolo para cigarro, quando tirou a moedinha do bolso, cuja efígie era de Getúlio Vargas, o ditador de então, a moedinha caiu e saiu rolando, e ele foi atrás dela, e prendendo-a com a sua bota, soltou um “f.d.p.”; e poucos minutos depois “seu” Garcia estava indo em cana por desacato à autoridade! Só que vários amigos de “seu” Garcia tomaram as dores dele e invadiram a delegacia local para libertá-lo, e o delegado, com medo de um quebra-quebra, não consumou a prisão.

Confesso que é a primeira vez que escrevo algumas linhas sobre o meu pai Sebastião Garcia de Freitas, pelo fato de não ter convivido com ele, pois eu era muito criança quando ele morreu, enquanto sobre a minha mãe escrevi inúmeros textos em face de minha intensa convivência com ela; que gostaria de ter desfrutado de uma convivência maior com ele, gostaria...

Que o Dia dos Pais dos que ainda têm seus pais vivos não passe em branco; dê-lhes, pelo menos, um forte abraço com o tradicional “valeu, velho!”




Alencar Garcia de Freitas 
é jornalista

COMENTAR

COPYRIGHT© 2007-2014 Don Oleari Ponto Com - Todos os direitos reservados - aldeia verbal produções e jornalismo - CNPJ: 15.265.070/0001-49