Alencar Garcia de Freitas: Fome de comer comida

21 de outubro de 2016

Tive a oportunidade de ficar à frente, há muito tempo e por vários anos, de uma organização de nome Sociedade São Vicente de Paulo, ligada à Igreja Católica (se há uma igreja que me ensinou lições de ouro como assistir e ajudar pessoas pobres, foi essa igreja...).

Entrei em contato corpo-a-corpo, diariamente, com dezenas de pessoas carentes abrigadas em favelas, morros, palafitas e alagados, na maioria das vezes com fome de comer comida. 

Algumas vezes tinha como companheiros solidários nessa faina, almas sempre presentes e participativas os queridos e saudosos Caseira (eu sempre brincava com o Caseira dizendo que se não tivesse um lugar para ele no céu, eu então sequer poderia passar em frente à porta do céu!), Xavier, Bianchi, Pedro Celestino e tantas outras almas generosas, com as quais subia e descia os morros e favelas da Vila Rubim, após a primeira missa de cada domingo. 

Confesso, entre outros pecados, que de volta dessa maratona, já pelo meio dia ou uma hora da tarde, com a mesa do almoço posta, mesa farta, com minha mulher, os três filhos pequenos, os sobrinhos que moravam com a gente, pessoas que auxiliavam e alguns convidados de última hora, olhava para aquele monte de comida apetitosa na minha frente, sentia uma vergonha enorme, e agora para a comida descer?!

Um dia, depois de uma reunião-almoço no melhor hotel do Centro de Vitória, com a participação de grandes empresários, lideranças políticas e empresariais e executivos, deparei-me com uma cena chocante: um latão entupido de lixos de todos os tipos e restos de banquetes, e mergulhado de cabeça para baixo naquele depósito de imundície, um cidadão brasileiro, como eu, tirando daquele meio os restos de comida e ali mesmo devorando-os desesperadamente, deixando claro que a fome de comida é um ato fisiológico sem fronteiras e sem qualquer tipo de preconceito.

Um dos que me acompanhavam, um tanto escandalizado, vociferou: isso é um absurdo! Como os donos do hotel não veem isso? E eu reagi: Os donos do hotel ou todos nós que precisamos tomar vergonha na cara e trabalhar para que haja maior e melhor distribuição de renda e não tanta miséria!

Já imaginou um chefe de família desempregado e um monte de filhos passando fome? O cara é capaz de qualquer maluquice, sendo capaz até de pegar comida na lixeira para matar sua fome, a fome de sua mulher e a fome dos seus filhos!


Alencar Garcia de Freitas
é jornalista

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