Orlando Eller: A urna

20 de outubro de 2016


As ditaduras nascem da irrelevância da política.

E todas têm um povo inculto como fonte de energia.





Em sonho sonhado noite passada notei que havia uma criança em posição de sentido. Vestia uniforme escolar de camisa lilás, calça curta azul e sapado preto que contrastava com a meia branca. Diante dela, jazia uma urna.

Imaginei que quisesse ensaiar voto, tangendo teclas, corrigindo ou confirmando; ou, quem sabe, por dom cívico, aspirasse reverenciar a urna cantando o Hino Nacional ou recitando Bilac, que vaticinou: “Criança, não verás nenhum país como este”...

A urna estava sobre uma mesinha escolar, abrigada por cabina em meia-caixa de papelão. Mas a criança não treinou; nem recitou odes de amor à pátria a que um dia tentará melhorar sempre que fizer apostas ao votar.

Vendo-me, quis saber:
─ O que é esta caixa com tela e botões numerados?
─ É uma urna eleitoral eletrônica...
─ Ah... para que serve?
─ Serve para escolher prefeito, vereador, deputado, governador.... Mas é preciso ser esperto; porque mesmo votando na esperança, a gente pode matar o futuro.
─ Você já a usou?
─ Algumas vezes, por que quer saber?
─ Quero saber se deu certo?
─ Ainda não. Errei todas.
─ Por quê?
─ Porque fui enganado.

Então a criança arregalou olhos e murmurou algo que não entendi. A urna inchou, inchou e foi se boleando. Suas teclas foram cuspidas à distância e de sua exígua tela começou a surgir um abcesso.

Meu espectro se expandiu; e pude notar então que, na verdade, a menina não estava só; havia dezenas de escolares curiosos em saber qual a finalidade objetiva daquela caixinha.

Juntos, assistimos à erupção do tumor; e dele eclodiu uma bicheira. Do seu cavo brotaram quilíades de vermes borbulhantes, como se vê em feridas abertas em dorso de cães.

As crianças começaram a vomitar, às golfadas. E se agachavam em doída ânsia a cada jato; e expeliam goela fora um caldo esverdeado, talvez reação de suas almas magoados. 

Então eu disse a elas:
─ Crianças, a cada biênio os adultos elegem seus representantes, tais como governador, prefeito e vereador, por exemplo. E o fazem numa urna como esta. Os votos são contados e, em tese, os mais votados deveriam estar efetivamente eleitos. Mas nem sempre ocorre assim.

─ A urna é um tesouro valioso. Atrai incontáveis interesses, de candidatos, de partidos, de agentes econômicos, de movimentos sociais, de autoridades e de eleitores. Gente do bem e do mal, claro. Seria ideal se, finda a eleição, os interesses fluíssem em direção do bem coletivo. Mas isto raramente se realiza.

─ Por quê? — quiseram saber.
─ Crianças, todo cidadão pode ser eleito para qualquer cargo. Se ele sabe ler, se é honesto, se tem preparo para a função, se conhece a ciência política, isso ainda são valores que raramente contam. Um dia, quem sabe, vocês ajudarão a matar a mazela.

─ Na ausência de educação e de cidadania ─ vitais para sobrevivência da nossa tênue democracia ─ das urnas não raro saem parasitas que contaminam, fedem e se multiplicam para gerar desditas coletivas de origem coletiva. Mas não culpem a urna. A bicheira que brota dela lhe foi inoculada por eleitores de fantasia em resposta à fantasia dos candidatos, todos vítima comum de um sistema cruel.


─ Crianças, vocês precisam de uma escola que lhes ensine mais do que simplesmente ler e escrever; que lhes eduque para além de agora, fomentando em seus corações a percepção crítica e a cidadania para que sejam mais. Se assim não for, bicheiras continuarão brotando de nossas urnas. Para agonia de todos.

Orlando Eller
é Jornalista

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