Orlando Eller - A surucucu

13 de novembro de 2016
Crônica

Papai empilhou as lascas de braúna uma a uma entre os dois coqueiros-de-quarta que enfeitavam o nosso quintal. Ajeitadamente, bem à frente da varandinha onde aos sábados dependurava pequeno espelho para tirar a barba com sua navalha Solingen.
Neto de imigrantes alemães, ele garantia orgulhosamente a quem quisesse saber que a navalha era puro aço alemão. E então afiava o fio dela, num vaivém, lado um, lado outro, alternadamente, sobre um pedaço de tronco de pita.
Ele na varanda tirando a barba era um sinal de trégua, hora de relaxar. As crianças começavam então a curtir festivamente o advento de mais um domingo, em que seria possível ser livre, desocupar-se, abrir asas e voar, conviver com os amigos, admirar a exuberância do mundo; um mundo de roça simples em que às vezes eram cruéis os jeitos de ser, de estar e de viver.
Meses se foram desde que aquelas lascas jaziam ali empilhadas. E foi num sábado em que, de supetão, ele me chamou:
- “Vamos tirar as lascas daqui e botar elas lá atrás do paiol; na segunda-feira quero fazer um novo chiqueiro de porco”. Eu, que já ansiava pela trégua, vi-me de repente atolado de novo em ansiedade, em ausência de liberdade, em coisas que eram próprias da nossa miséria tão rural, de pouco amanhã.
Comecei a ajudá-lo, porque assim ordenara. Uma a uma, fomos recolhendo as lascas que, cheias de farpas, feriam minhas mãos. Eram pesadas como o ferro, negras como a noite e duras como o granito. Foi assim que aprendi a razão pela qual lascas de braúna não apodrecem quando enterradas; e não apodreciam e duravam um tanto e um quanto... um século ou quem sabe mais.
No meio da tarde, quando já perdia a esperança de que naquele dia papai cortaria de novo a barba, ele puxou uma estaca e, dentre tantas outras da pilha, emergiu uma surucucu desmedida, de cores baralhadas, que lhe desferiu um bote. Esperto em razão de todas as moitas que mundo já lhe reservara, papai safou-se num átimo; e a cobra voltou a enrolar-se para ficar de espreita, de novo, cabeça empinada, como em trincheira para a guerra.
Ele correu até o quarto e voltou com a cartucheira em punho; e, sôfrego, disparou. Um tiro só. De muitos chumbos. A surucucu enroscou-se para a esquerda e para a direita; embolou-se inúmeras vezes sobre si mesma, no entorno de si, para um lado e para outro, trêmula e esquisita e, sem volta, aquietou-se para morrer em solidão. Fiquei com pena dela, tão só ali ficara, entre tantas estacas de braúna empilhadas.
Era hora do almoço. Mamãe chamou, mas não fui. Antes, intrigado, peguei uma vareta e me esforcei até retirá-la do seu esconderijo sob o monte das estacas. Ela estava inerte. Puxei-a então devagar até colocá-la no aberto do terreiro; e manipulei o jeito dela e admirei surpreso como mexiam os seus músculos nervosos e o rabo, que eu achava inofensivo. Espichei-a. Longa, bela, o seu corpo era todo desenhado de imagens nas cores amarela e negra, tudo tão misteriosamente enfeitado. Imaginei-a então minha, como um bichinho de estimação.
Papai olhava de longe, da varanda, enquanto pitava um cigarro de fumo de rolo em palha de milho. Nada disse, nem me advertiu sobre o que admirava, o manuseio que fazia dela, quase em comunhão comigo naquele terreiro varrido e sem folhas. Imaginei então:
- Como as cobras injetam o veneno? Seria como faz o Teodoro, que inocula a vacina na bunda da gente usando seringa e agulha que ferve no fogo azul do álcool? Teriam as cobras algo mais, quem sabe um espírito de soberba que sob um ainda mistério deixou inebriada a mulher de Adão lá no Éden? Não sei. Mas quero descobrir onde ela acomoda tanto veneno e como o aplica tão meticulosamente nas carnes da gente...
Com um graveto abri sua boca. Com outro, comecei a explorar como era o interior daquele aparelho letal. Achei somente duas presas, ambas na parte superior. E, presa por presa, examinei detidamente cada uma para saber como eram; manipulei uma, cutuquei a outra e aprendi que não eram como agulha furadinha, de seringa; estavam, isto sim, bem acondicionadas em pele quase plástica, resistente.
Que decepção a minha! Desde que vi duas picadas na perna do meu tio, em que lhe foi inoculado veneno por uma delas durante roçada, tinha por certo que as cobras faziam como Teodoro, que injetava líquidos, só que mecanicamente.
Então, persisti na pesquisa. Examinei mais, tudo o que pude, boca, céu da boca e até fundo da garganta; mas com desmedido cuidado porque, à moda do diabo, poderia picar-me, ainda que morta. Afinal, era uma cobra, retrato daquela que, aninhada na única árvore que era do bem e do mal, introduziu a desobediência e todos os seus males consequentes na Terra dos homens.
Papai nada dizia, mas não subtraía os olhos da minha experiência menina. Até que, em súbita retração da pele de uma de suas presas, escapuliu um jato inesperado de veneno que, ejaculado, ganhou os ares à minha frente para se dissipar, quase calhando os meus olhos tão curiosos. Então, em assombroso pânico e aos gritos, saiu pelo portão da varanda, tomou o primeiro pedaço de pau que viu à frente e deu com ele nas minhas costas.
Caí sobressaltado e, em pânico, pulei em pé de novo para evadir-me dali, correndo em disparada pastaria afora. Desde então, cobras me dão pânico e uma inexplicável impaciência. E não me contenho. Mato inesperadamente, sem hesitar, qualquer uma que ousar diante dos meus olhos. Venenosa ou não, bastando para isso que seja apenas uma cobra.

Orlando Eller
é jornalista
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