Orlando Eller: A urna

20 de dezembro de 2016


Em sonho sonhado noite passada notei que havia uma criança em posição de sentido. Vestia uniforme escolar de camisa lilás, calça curta azul e sapado preto que contrastava com a meia branca. Diante dela, jazia uma urna.

Imaginei que quisesse ensaiar voto, tangendo teclas, corrigindo ou confirmando; ou, quem sabe, por dom cívico, aspirasse reverenciar a urna cantando o Hino Nacional ou recitando Bilac, que vaticinou: “Criança, não verás nenhum país como este”...

A urna estava sobre uma mesinha escolar, abrigada por cabina em meia-caixa de papelão. Mas a criança não treinou; nem recitou odes de amor à pátria a que um dia tentará melhorar sempre que fizer apostas ao votar.
Vendo-me, quis saber:

─ O que é esta caixa com tela e botões numerados?
─ É uma urna eleitoral eletrônica...
─ Ah... para que serve?
─ Serve para escolher prefeito, vereador, deputado, governador.... Mas é preciso ser esperto; porque mesmo votando na esperança, a gente pode matar o futuro.
─ Você já a usou?
─ Algumas vezes, por que quer saber?
─ Quero saber se deu certo?
─ Ainda não. Errei todas.
─ Por quê?
─ Porque fui enganado.

Então a criança arregalou olhos e murmurou algo que não entendi. A urna inchou, inchou e foi se boleando. Suas teclas foram cuspidas à distância e de sua exígua tela começou a surgir um abcesso.

Meu espectro se expandiu; e pude notar então que, na verdade, a menina não estava só; havia dezenas de escolares curiosos em saber qual a finalidade objetiva daquela caixinha.

Juntos, assistimos à erupção do tumor; e dele eclodiu uma bicheira. Do seu cavo brotaram quilíades de vermes borbulhantes, como se vê em feridas abertas em dorso de cães.

As crianças começaram a vomitar, às golfadas. E se agachavam em doída ânsia a cada jato; e expeliam goela fora um caldo esverdeado, talvez reação de suas almas magoados. Então eu disse a elas:

─ Crianças, a cada biênio os adultos elegem seus representantes, tais como governador, prefeito e vereador, por exemplo. E o fazem numa urna como esta. Os votos são contados e, em tese, os mais votados deveriam estar efetivamente eleitos. Mas nem sempre ocorre assim.

─ A urna é um tesouro valioso. Atrai incontáveis interesses, de candidatos, de partidos, de agentes econômicos, de movimentos sociais, de autoridades e de eleitores. Gente do bem e do mal, claro. Seria ideal se, finda a eleição, os interesses fluíssem em direção do bem coletivo. Mas isto raramente se realiza.
─ Por quê? — quiseram saber.

─ Crianças, todo cidadão pode ser eleito para qualquer cargo. Se ele sabe ler, se é honesto, se tem preparo para a função, se conhece a ciência política, isso ainda são valores que raramente contam. Um dia, quem sabe, vocês ajudarão a matar a mazela.

─ Na ausência de educação e de cidadania ─ vitais para sobrevivência da nossa tênue democracia ─ das urnas não raro saem parasitas que contaminam, fedem e se multiplicam para gerar desditas coletivas de origem coletiva. Mas não culpem a urna. A bicheira que brota dela lhe foi inoculada por eleitores de fantasia em resposta à fantasia dos candidatos, todos vítima comum de um sistema cruel.

─ Crianças, vocês precisam de uma escola que lhes ensine mais do que simplesmente ler e escrever; que lhes eduque para além de agora, fomentando em seus corações a percepção crítica e a cidadania para que sejam mais. Se assim não for, bicheiras continuarão brotando de nossas urnas. Para agonia de todos.





Orlando Eller 
é Jornalista

COMENTAR

COPYRIGHT© 2007-2014 Don Oleari Ponto Com - Todos os direitos reservados - aldeia verbal produções e jornalismo - CNPJ: 15.265.070/0001-49