Uchôa de Mendonça: Partida indesejável

6 de dezembro de 2016
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A Locomotiva da "Estrada de Ferro São Matheus" transportando em seus vagões enormes toras madeira de lei da Vila de Nova Venécia para o porto da Cidade de São Mateus.

Outro dia em terras gauchas, nas serras de Gramado, o amigo João Lucio ligava seu telefone e nos mostrava um comunicado “Faleceu Lúcio Toscano Aragão. 

Pedi, surpreso, para confirmar a notícia. Acabara de falecer o velho e querido amigo mateense Lucio Toscano Aragão, filho de um dos raros espanhóis que aportaram em São Mateus e veio trabalhar na área das comunicações telegráficas da Estrada de ferro São Mateus – Nova Venécia, dentre outros estrangeiros que ali pontificaram em serviços especializados, como o português Antônio Gomes (o Antonio Português), pai de Lino Santos Gomes, que foi secretário da Indústria e Comércio do nosso ES, o engenheiro, natural da Alemanha, Carlo Weter, todos de saudosa memória.

Meu último encontro com Lúcio Toscano Aragão foi num almoço com a presença do meu caro amigo Chrisógono Teixeira da Cruz (que padece de um maldito estado comatoso, fruto de um AVC, há meses). Lúcio fora secretário da Fazenda de Chrisógono, quando prefeito de Vitória. 

Para mim, Aragão era a única testemunha viva do meu tempo de infância lá no meu São Mateus, onde seu pai, amigo realmente do meu, pela familiaridade espanhola, poderia clarear muitas coisas que, em uma mente só, passa desapercebida das coisas antigas. Combinamos, ali na mesa do restaurante, com o Chrisógono de testemunha, que iríamos nos reunir, trocando “figurinhas” e revendo os fatos dos tempos que não foram bons para todos nós...

Faz pouco tempo Lúcio marcou para vir à minha casa num fim de semana para conversamos, com seus apontamentos. Surpreendentemente, suspendeu o encontro, prometendo para outra ocasião. Perdi o amigo, perdi ao que chamava de minha última fonte de informação sobre nosso São Mateus.

Responsável pelo sistema de transmissão telefônica da Estrada de Ferro de São Mateus – Nova Venécia, o Sr. Aragão detinha, na sua casa, próxima da minha, na esquina do beco do “Seu Dingo”, distante apenas 50 metros, um telefone daqueles de manivela, por onde se comunicava com toda a linha férrea. 

Com a prisão do meu pai, pela Polícia Política do Estado Novo, regime manobrado por Getúlio Vargas, minha mãe correu à casa do amigo espanhol para pedir para falar com Lolô Cunha (Eleosipo Cunha), o conhecido “rei da madeira” do Norte do ES, no quilômetro 41 da ferrovia, para que ele viesse a São Mateus para impedir que meu pai, preso, fosse levado para o Rio de Janeiro, como aventou Ciro Vieira da Cunha, então Secretário do Interior e Assuntos de Justiça, do governo Punaro Bley.

Ele tinha ordens severas de Felinto Muller, chefe de Polícia do Getúlio, para meu pai ser conduzido preso para o Rio. Chamado, Lolô cunha veio e realmente impediu que meu pai fosse transferido para o Rio de Janeiro. 


Esse favor sempre creditava ao Sr. Aragão, pai do Lúcio, como responsável por ter salvo a vida do meu pai.

Valia a pena ser amigo de Lúcio Toscano Aragão.




Uchôa de Mendonça
é jornalista

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